Numa tarde de junho de 1972, quatro jovens se reuniram no interior de um restaurante de São Paulo. Não por casualidade, nem pelo gozo do afeto ou da alegria de amigos eles não se encontravam como os parceiros de mil outras mesas de tardes paulistas, embora não carecessem de risos e gestos de ternura. O que os distinguia era a determinação do olhar, o manejo dos escassos minutos daquele encontro, e terem suas fotos afixadas em cartazes nos aeroportos e estações rodoviárias do País, com dizeres da feroz perseguição da ditadura.
luri Xavier Pereira, Marcos Nonato da Fonseca, Antônio Carlos Bicalho Lana e Ana Maria Nacinovic Corrêa foram então reconhecidos pelo dono do restaurante, que era alcagüete da polícia, e que, de imediato, os denunciou ao DOI-CODI de São Paulo. Fortemente armados, os agentes do DOI-CODI montaram a emboscada e atacaram furiosamente. Antônio Carlos foi o único que escapou, ferido. lúri, Marcos Nonato e Ana Maria foram assassinados e seus corpos brutalmente espancados pelos policiais.
Quem era a moça bonita, a dos olhos de azul meiguice, cujo corpo passou a ser pisado pelos agentes da polícia, e jogado diabolicamente para cima e para os lados, a fim de surtir pânico e silenciar os moradores que testemunhavam o massacre?
Ana Maria estava com 25 anos de idade. Nasceu no Rio de Janeiro, onde teve a infância tranqüila das meninas dadas ao estudo e à música. Queria tornar-se engenheira, mas o futuro de trevas anunciado pela ditadura a levou à revolta e à militância na Ação Libertadora Nacional. Vivíamos os dias asfixiantes de Garrastazu Médici, quando Ana Maria foi metralhada e morta. Os acontecimentos daquela tarde gravaram ressonâncias profundas na cidade. Vinte anos depois, populares da Móoca evocaram a tragédia e sugeriam o nome de Ana Maria para uma creche municipal, o que foi aceito pela então prefeita Luiza Erundina.
De muito nos privou a ditadura militar. Privou-nos da liberdade, da soberania, da justiça. Privou-nos também da claridade dos seus olhos, Ana Maria, e das suas mãos pianistas. Seu exemplo generoso e valente a polícia não conseguiu liquidar.
Fonte: https://www.torturanuncamais-rj.org.br/medalha/ana-maria-nacinovic-correa/
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