ensa (ABI). O documento tem origens diversas, incluindo o Centro de Informações da Marinha (CENIMAR), a Divisão de Segurança e Informações do Paraná e o Ministério da Aeronáutica, abrangendo majoritariamente o período entre 1976 e 1978. Trata-se de um registro híbrido que revela tanto a visão paranoica do aparato estatal sobre a sociedade civil quanto a resistência editorial da classe jornalística em um dos momentos mais complexos da história política brasileira.
O conteúdo detalha o monitoramento rigoroso das eleições internas da ABI, nas quais o regime militar via uma suposta “infiltração comunista” em sua diretoria e conselho deliberativo. Os relatórios descrevem a sede da entidade como um “território russo” e analisam minuciosamente o comportamento de jornalistas e intelectuais, acusando-os de utilizar a instituição como fachada para atividades subversivas. Paralelamente, o Boletim da ABI expõe a face pública dessa tensão, denunciando a censura prévia imposta a jornais como O São Paulo e o semanário Movimento, além de documentar a prisão de profissionais como Lourenço Diaféria, enquadrado na Lei de Segurança Nacional por suas opiniões.
Este material está inserido no contexto do governo do General Ernesto Geisel, marcado pela política de “abertura lenta, gradual e segura”, que, na prática, convivia com a manutenção de estruturas repressivas violentas e um controle sufocante sobre a opinião pública. Enquanto o regime tentava projetar uma imagem de transição, os órgãos de inteligência continuavam a produzir dossiês sobre a vida privada e política de cidadãos, estendendo a vigilância até mesmo a processos de admissão em empresas estatais como a Petrobras. O documento ilustra o “círculo vicioso de informações” mencionado nos próprios relatórios, onde dossiês eram alimentados constantemente para justificar o cerceamento de direitos fundamentais sob o pretexto da segurança nacional.
O arquivo revela a natureza arbitrária e antidemocrática da ditadura militar, que transformava o livre exercício do pensamento em crime e o associativismo profissional em ameaça ao Estado. Ao classificar vozes críticas como “subversivas” e censurar até mesmo textos religiosos ou acadêmicos, o regime demonstrava sua incapacidade de lidar com a pluralidade e o debate. A perseguição institucionalizada exposta no arquivo é um lembrete sombrio de como o autoritarismo degrada as instituições e tenta silenciar a sociedade por meio do medo, reforçando a importância histórica da ABI como um bastião que, apesar da vigilância, lutou pelo direito à verdade e pela redemocratização do país.
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