UM PAI PASSOU ANOS PROCURANDO ANOS
FILHA. NUNCA A ENCONTROU.
Majer Kucinski (1904–1983), professor e escritor de lingua Idiche, jornalista e imigrante judeu-polonês que fugiu do antissemitismo na Europa para reconstruir a vida no Brasil, acreditava ter encontrado um lugar seguro para criar sua família.
Mas, em 22 de abril de 1974, já no início do governo do general Ernesto Geisel, em pleno regime militar ,sua vida mudou para sempre.
Sua filha, Ana Rosa Kucinski, tinha 32 anos.
Era professora de Química da Universidade de São Paulo (USP), pesquisadora e militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), organização que fazia oposição à ditadura militar.
Naquele dia, ela saiu para almoçar com o marido, Wilson Silva.
Os dois nunca mais voltaram.
A partir daquele momento, a vida de Majer transformou-se em uma longa peregrinação.
Ele não buscava culpados.
Buscava a filha.
Bateu às portas de quartéis, delegacias, gabinetes e necrotérios.
Escreveu cartas.
Pediu informações.
Recusava-se a acreditar que uma professora universitária pudesse simplesmente desaparecer sem deixar vestígios.
As respostas nunca chegaram.
Ana Rosa nunca voltou.
A dor da incerteza tornou-se permanente.
Como viver sem saber?
Como envelhecer sem poder abraçar a própria filha mais uma vez?
Majer procurou Ana Rosa até o fim da vida.
Morreu sem encontrar a filha e sem receber as respostas que tanto buscou.
Décadas depois, a própria USP reconheceu que havia cometido uma grave injustiça ao demitir Ana Rosa por “abandono de função”, anulando oficialmente esse ato e prestando homenagem à sua memória.
A Comissão Nacional da Verdade concluiu que Ana Rosa Kucinski e Wilson Silva foram presos por agentes do Estado, mortos sob custódia e tiveram seus corpos ocultados, reconhecendo a responsabilidade do Estado brasileiro por esses crimes.
Concluiu também que, apesar do discurso de uma “distensão lenta, gradual e segura” durante o governo do general Ernesto Geisel, a repressão política continuou recorrendo a prisões ilegais, torturas, execuções e desaparecimentos forçados.
Mas nenhuma reparação foi capaz de devolver à família aquilo que lhe foi tirado.
Anos depois, seu filho, o escritor Bernardo Kucinski, irmão de Ana Rosa, transformou a busca do pai em um dos livros mais marcantes da literatura brasileira, K.: Relato de uma Busca.
Logo na abertura da obra, escreveu uma frase impossível de esquecer:
“Tudo neste livro é invenção, mas quase tudo aconteceu.”
Hoje, ao recordar Majer e Ana Rosa Kucinski, lembramos que a História não é feita apenas de datas e acontecimentos.
Ela também é feita de pais que nunca deixaram de procurar seus filhos.
Na foto: Bernardo Kucinski e sua irmã Ana Rosa Kucinski Silva
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