O DIA DO GOLPE MILITAR – ALUÍZIO PALMAR
Foi no escritório do PCB em Niterói, que fiquei sabendo que as tropas golpistas haviam chegado na cidade do Rio de Janeiro e que o presidente João Goulart estava destituído. Apinhados na salinha, do Edifício Ajax, a gente ouvia, na manhã de 1º de Abril, as notícias de tropas em movimento e manifesto golpista, transmitidas por um rádio emprestado pelo vigia do prédio.
Na véspera, ainda resistimos nas ruas da antiga capital do Estado do Rio de Janeiro, com passeatas e barricadas. No final da tarde, enquanto as tropas do general golpistas ainda estavam em Juiz de Fora, nós saímos em marcha pela Avenida Almirante Amaral Peixoto gritando palavras de ordem em defesa do governo João Goulart, da democracia e das reformas de base. Chegamos na antiga Assembléia Legislativa e nas escadarias o deputado Afonso Celso Nogueira Monteiro fez um pronunciamento, alertando a população sobre a ameaça de um golpe de Estado de caráter fascista e convocava todos para resistir aos golpistas.
Por volta das sete horas da noite chegou um contingente da polícia e um agente ordenou que ele parasse de falar. Afonsinho disse que ninguém ia impedir que ele defendesse a democracia e a legalidade. Nesse instante o agente puxou o revólver e deu um tiro pra cima. O susto foi geral e, temendo o pior, Afonso Celso entrou na Assembléia e, ajudado por outros deputados, fechou as pesadas portas de ferro do legislativo e usou uma saída subterrânea, existente na época, que ia dar atrás do Liceu Nilo Peçanha, para sair da área a tempo de participar de uma reunião de emergência da Comissão Executiva do PCB.
Na manhã seguinte, 1º de Abril, estávamos na sala do Edifício Ájax, atentos ao noticiário que informava sobre o avanço dos golpistas em todo o país, quando alguém exclamou, não sei se foi Afonsinho ou Miguel Batista: “Vamos resistir”. Foi então que eu peguei o Aquiles Reis pelo braço e pedi que me acompanhasse até São Gonçalo para despedir-me de meus pais e apanhar umas mudas de roupa. Chegamos em casa por volta das onze horas da manhã. Mamãe estava na cozinha e quando ela nos viu diminuiu o volume do rádio, que, naquela altura dos acontecimentos, transmitia apenas marchas e dobrados militares. Tirou o avental e nos recebeu com beijos. Não foi nem preciso que eu revelasse o motivo de minha chegada, assim, sem mais nem menos. Sua intuição materna era suficiente para que ela percebesse o que estava acontecendo. Preparou o café com leite, destapou a manteigueira, passou no pão e ficou muda enquanto a gente comia. Em seguida, nos acompanhava até o portão. Beijei-lhe a face molhada pelas lágrimas de seu pranto mudo e fui.
Eu tinha 20 anos e Aquiles, acho que um pouco menos. Nosso plano era ir direto para o Sindicato dos Operários Navais de Niterói, onde faríamos contato com a resistência contra os golpistas. Porém, nem descemos do ônibus. O sindicato, os estaleiros e os bairros operários estavam ocupados pelos militares. Eu chorei, chorei e meu peito doeu ao ver nossos sonhos caírem por terra.
Acabrunhados, fomos direto para o apartamento de Aquiles, no bairro de Icaraí. Naquele momento eu queria era ir para o Rio Grande do Sul e juntar-me à resistência comandada por Leonel Brizola. Assim que contei para o pai de Aquiles, velho militante do PCB, a minha intenção de pegar em armas, ele se levantou da poltrona e disse: “Calma rapaz, essa quartelada de merda não vai durar muito tempo”. Infelizmente a previsão otimista de Geraldo Reis não se consumou. Os golpistas ficaram no poder durante mais de 20 anos. Geraldo foi perseguido, demitido de seu emprego na Coletoria de Rendas e morreu de tristeza anos depois. Acabou virando nome de CIEP em Niterói, numa justa homenagem feita por Brizola, quando foi governador do Estado do Rio de Janeiro. A resistência aos golpistas não aconteceu, veio a luta interna dentro do PCB, rompemos com a direção e eu acabei caindo na clandestinidade para organizar a luta armada, sendo mais tarde preso, torturado e banido do país. Aquiles seguiu carreira musical com seus colegas do MPB4 e fez da arte uma forma de resistir, Afonsinho passou um tempo preso no Estádio Caio Martins. Mamãe, papai, minha irmã e meus irmãos, foram perseguidos durante anos, e eu só fui entrar em contato com a família em agosto de 1979, quando a Lei da Anistia foi promulgada.
Apoie o Documentos Revelados
Desde 2005 o site Documentos Revelados faz um trabalho único no Brasil de garimpo de documentos do período da ditadura. Ele é dirigido, editado e mantido no ar por uma única pessoa, Aluízio Palmar.
Contribuindo para manter o Documentos Revelados você ajuda a história a não ser esquecida e que nunca se repita.
Copie esta chave PIX, cole no aplicativo de seu banco e faça uma doação de qualquer valor: