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UM CASO DE AMOR NA GUERRILHA. A HISTÓRIA DA ÍNDIA ATAMILCA E O SALVA VIDAS WÁLTER

A índia Atamilca e o salva-vidas Wálter. Uma história de amor na guerrilha

Atamilca trabalhava como doméstica na casa de um militar na cidade de Letícia, fronteira do Brasil com a Colômbia. Em certa ocasião, seus patrões se mudaram para o Rio de Janeiro e a levaram junto.

Num domingo de muito calor, após terminar seus afazeres na casa, Atamilca desceu até a praia. Não estava acostumada com o mar e quando se deu conta as ondas a haviam carregado.

Nesse dia, Wálter Novaes estava em seu plantão de salva-vidas na Praia de Copacabana e, quando viu a mulher afogando-se, pulou do seu posto de guarda e a salvou.

Os dois se apaixonaram, casaram-se e, na lua de mel, Atamilca ficou sabendo que Wálter era militante da Vanguarda Popular Revolucionária – a VPR.

Ela pouco entendia, mas, sabia que seu marido lutava por liberdade e a favor do povo trabalhador. E assim, foram vivendo na vida tranquila do subúrbio carioca.

A calmaria durou pouco. Em 13 de junho de 1970, Wálter foi preso. Essa primeira prisão de Wálter durou dois meses.

Ao ser libertado, Wálter estava debilitado em função das torturas. Passou a viver na clandestinidade e assumiu a tarefa de cuidar da infraestrutura do comando da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Atuou nos sequestros dos embaixadores da Alemanha, em junho de 1970, e da Suíça, entre dezembro daquele ano e janeiro de 1971.

A segunda prisão de Wálter Ribeiro Novaes ocorreu em 12 de julho de 1971, no bairro da Penha, na cidade do Rio de Janeiro, depois da invasão à sua residência por policiais à paisana, que reviraram móveis, espalharam terror e molestaram sua esposa, Atamilca, na frente de seus dois filhos menores. Eram cerca de 18h30 quando o militante da VPR saiu para ir ao encontro de Alípio, também guarda-vidas, que trabalhava na Barra da Tijuca. Foi a última vez em que Wálter foi visto.

Com o desaparecimento de Wálter Novaes, o comando da VPR decidiu tirar do Brasil Atamilca e os dois filhos do casal.

Em agosto de 1971, o militante da VPR José Carlos Mendes, então com 19 anos, chegou a Santiago com a jovem indígena e os dois filhos dela. A moça Atamilca Tyapamil Ortiz Novaes, esposa de “Dico” (nome de guerra de Wálter), e os filhos, Marcelo e Tatiana, um bebê de colo, chegaram ao Chile, de Salvador Allende, e foram recebidos por Aluízio Palmar, responsável pela VPR no Chile naquele momento.

Palmar levou Atamilca e seus filhos para um sítio que a VPR possuía nas proximidades de Santiago. No sítio já estava “hospedado” o fundador da VPR, Diógenes de Oliveira, recém-chegado de Cuba.

Por questão de segurança, a ordem era manter Atamilca clandestina, sem nenhum contato com a colônia de asilados. Porém, a jovem não se adaptou à rigidez imposta por Palmar e acabou sendo levada para morar com Bruno e Geni Piola, casal de Passo Fundo que saiu da prisão em janeiro de 1971, juntamente com outros 68 presos políticos, em troca do Embaixador da Suíça no Brasil.

Em 1973, aconteceu o golpe militar que derrubou o governo da Unidade Popular, e Atamilca, juntamente com o casal de filhos, asilou-se na Embaixada da Argentina e tarde se asilaram na Suécia, onde viveram no Polo Norte, até o final da década de 1990.

Walter Ribeiro Novaes, segundo diversas testemunhas, foi assassinado na Casa da Morte, de Petrópolis e seu corpo nunca foi encontrado.

Atamilca Tyapamil Ortiz Novaes, voltou para o Brasil no final da década de 90, acompanhando um grupo de turistas suecos que desejavam conhecer o Rio Amazonas e vive atualmente na cidade de Letícia.

Marcelo e Tatiana, moram na Bahia.

A ÍNDIA ATAMILCA E O SALVA VIDAS WÁLTER. UMA HISTÓRIA DE AMOR NA GUERRILHA

A ÍNDIA ATAMILCA E O SALVA VIDAS WÁLTER. UMA HISTÓRIA DE AMOR NA GUERRILHA 02

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2 comentários

  1. Eliete Ferrer says:

    Que história!
    Muita emoção…
    Obrigada por publicar!
    Gostaria de colher esse texto para o segundo volume do livro “68 a geração que queria mudar o mundo relatos” em que estou trabalhando…
    Você autoriza?

  2. luiz Hespanha says:

    Que história. Sabia do Valter através dos livros do Alex Polari e outros que tratam dos desaparecidos, mas nunca da Atamilca. Que história..

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