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Mosteiro da Anunciação, em Curitiba, foi fechado por perseguição política

Em 10 de julho de 1968, a extrema direita de Curitiba, por meio de uma autodenominada Associação Cristã Feminina, enviou carta ao Arcebispo Metropolitano Dom Manuel da Silveira D’Elboux, acusando os monges do Mosteiro da Anunciação, de “doutrinação marxista” e de serem “estrangeiros pregando a subversão” e pedem medidas enérgicas contra os monges.

Um mês após. O Arcebispo recebeu um extenso documentos contendo assinaturas de sacerdotes,de congregações religiosas e leigos em defesa dos monges beneditinos.

O abaixo assinado, com data de 15 de agosto de 1968, ressalta o trabalho de evangelização liderado pelo padre Felipe Leddet e do noviço Eloi Pietá.

Para melho esclarecer o assunto, recebi cirrespondência do doutor Gerson Branco, com importantes informações sobre o Mosteiro da Anunciação e as perseguições ocorridas durante a ditadura.

“Caro Aluízio, bom dia. O monge Marcelo Barros, que fez parte do Mosteiro da Anunciação, hoje atua em Pernambuco, tinha a ideia, juntamente com outros amigos, de escrever sobre o Mosteiro, particularmente sobre o Père Filipe Leddet. São dele as informações que transcrevo:

“O mosteiro de Curitiba tem uma história complexa e bonita. Em 1960, Dom Manuel da Silveira d´Elboux, terceiro arcebispo de Curitiba, a partir da sugestão e apoio da Madre Belém, irmã contemplativa de Sion, no Convento da Solitude, pediu ao abade do Mosteiro de Tournay, no sul da França que fizesse uma fundação monástica em sua arquidiocese. Este pedido foi aceito pelo abade e comunidade de Tournay que enviou oito monges para Curitiba. No dia 23 de outubro de 1960, chegaram pela primeira vez ao Brasil os irmãos Filipe Leddet e Leon Waché que conhecem a realidade e retornam à França. Em 17 de dezembro do mesmo 1960, chegam definitivamente a Curitiba quatro monges: Filipe, Leon, Plácido (Pedro) e Domingos (Pierre) Sanchis. Os monges se hospedam no Convento da Solitude de Sion e iniciam a procura de um bom local para a construção do mosteiro.

A construção do mosteiro em Curitiba dura mais de dois anos. Só no início de 1963 é concluída a capela, toda de madeira com uma imensa parede de vidro que dava para o bosque e parecia colocar a natureza dentro da capela para ser venerada, já que na capela não tinha nenhuma outra imagem religiosa do que uma pequena cruz sem imagem e uma espécie de ícone gravado na madeira que, de forma estilizada, representava a cena evangélica da anunciação do anjo a Maria.

No começo, o mosteiro foi frequentado por intelectuais cristãos e pessoas ligadas à Universidade. Pouco a pouco, pessoas ligadas à pastoral popular, marginalizadas pela Igreja local e perseguidas pelo governo começaram a frequentar o mosteiro. Cada vez mais, os monges se ligavam à corrente mais progressista da Igreja e mesmo a alguns amigos que militavam em grupos de esquerda.

Nos últimos anos da década de 60, Filipe acolheu como noviço um jovem que desejava ser monge, mas, ao mesmo tempo, inserir-se no trabalho para transformar este mundo. Elói Pietà era um estudante universitário, ligado ao Diretório dos Estudantes e que já entrou no mosteiro com contatos no mundo estudantil e certa participação social e política. Filipe que acabava por não receber jovens “muito espirituais”, mas que desejavam a segurança de uma instituição religiosa rígida, via em jovens como Elói um sinal de vocação monástica, no sentido da opção de consagração ao projeto divino, de totalidade e doação de vida. O rapaz ficou no Mosteiro mais de um ano. Os monges aceitaram que este continuasse seus estudos e o seu engajamento na Universidade. Com apoio da comunidade, ele participou do Congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes), organização na época proibida pela Ditadura Militar Brasileira. O congresso se realizou em uma cidade do interior de São Paulo (Ibiúna), de forma clandestina. No meio das reuniões, um tumulto e a polícia militar invade o congresso e leva todos os estudantes presos. Alguns poucos conseguiram fugir. A partir daí, Elói teve de viver um tempo como clandestino e não pôde mais continuar seu caminho monástico. O próprio mosteiro ficou considerado pelos órgãos da repressão como uma instituição subversiva.

A pesquisadora Sirlene do Rocio Valença descobriu que, no final do ano de 1968, quase na mesma data em que no Brasil, o governo militar edita o Ato Institucional n. 5, a Associação Feminina Cristã (organização de senhoras ricas de Curitiba) escreveu uma carta ao arcebispo na qual pedia sua intervenção para fechar o mosteiro da Anunciação. A tal mensagem justificava o pedido dizendo: “é um centro de divulgação de idéias marxistas (…), um local onde estrangeiros e inimigos de nossa pátria têm o desplante de pregar a subversão da ordem estabelecida para a implantação de um regime que a Igreja definiu como intrinsecamente mau”

Em Curitiba, por anos e anos, Filipe abriu totalmente o mosteiro a homens e mulheres leigos, cristãos do mundo e mesmo pessoas em busca.  Ele acabou com a clausura monástica e possibilitou às pessoas que vinham de fora que circulassem por todo o mosteiro, se hospedassem na mesma casa dos monges e até integrava em algumas reuniões alguns que desejavam fazer parte da comunidade de uma forma mais estreita. Vários casais jovens passavam todos os finais de semana conosco. Participavam dos trabalhos cotidianos, tirar leite de vaca, fazer a cozinha e podiam estar em nossas reuniões e até mesmo participavam ativamente de decisões da comunidade. Isso enriqueceu profundamente a comunidade, em momentos nos quais ela era pequena e muito limitada.

Do lado político, o seu nome constava nas listas de subversivos perigosos. Por duas vezes, o governo militar brasileiro se negou a conceder cidadania brasileira a Filipe. Ao contrário, instaurou contra ele um Inquérito Policial Militar (IPM) para averiguar suas relações com os grupos revolucionários. Do lado dos monges, também as relações se tornavam mais difíceis. Em 1969, ele soube pelo abade Dom Basílio Penido que um militar graduado, amigo dos monges, tinha contado a um abade da Congregação Brasileira que havia um risco real do Filipe Leddet, prior de Curitiba, ser preso como subversivo. Isso significava risco de tortura, morte ou deportação para sua pátria de origem. Aquele abade teria respondido ao oficial: “Se ele está querendo ser mártir não podemos impedi-lo. Oremos por ele, mas à distância que é necessária para nos resguardar”.

“Logo depois da Páscoa (1977), em Curitiba, aconteceu uma assembléia nacional do CIMI (Conselho Indigenista Missionário). Dom Tomás Balduíno era o presidente do CIMI e pedimos para conversar com ele. O encontro com Dom Tomás foi excelente e ele convidou a comunidade a se transferir à diocese de Goiás da qual ele era o bispo.

“No final de 1977, partir para Goiás, no estado do mesmo nome, onde o bispo Tomas Balduíno está pronto para acolhê-los. O novo mosteiro em Goiás foi inaugurado no dia 20 de fevereiro de 1985.

Filipe disse que a fundação tinha sido feita a pedido do papa João XXIII que convidava os religiosos europeus a virem a América Latina.

Explicou que o projeto de Curitiba era ser um mosteiro simples, inserido no meio dos pobres e priorizando a vida comunitária como uma trincheira de irmãos que se apoiavam um ao outro para contestar um modelo social de sociedade injusta. Tournay, Curitiba e Goiás. Ali, o irmão Filipe diz claramente: ” Penso que minha vida monástica começa com a guerra de 1939-1940. Ao procurar meu caminho, alguns meses antes do começo das hostilidades, descobri o mosteiro de Madiran, aos pés dos Pireneus. Três semanas antes da declaração de guerra, passei ali uma semana da qual saí encantado. Esta guerra só durou um ano. Depois, veio o tempo do cativeiro (…).”

O filme “Fugindo do inferno”, dirigido por John Sturges, com Steve McQueen, Charles Bronson, é baseado na história real do Père Filipe Leddet, de quem ouvi como tudo ocorreu. Literalmente, um relato emocionante. Espero ter ajudado e estou à disposição para eventuais esclarPhilippe Leddet

Em fevereiro de 1992, Dona Leonor Correia de Oliveira, esposa do professor José Lamartine Correa de Oliveira, entrevistou o Filipe e registrou estas conversas em fitas cassetes. A escuta destas fitas oferece uma visão de conjunto sobre sua vida de monge, ao longo das quatro etapas que a marcam: Madiran, Tournay, Curitiba e Goiás. Ali, o irmão Filipe diz claramente: ” Penso que minha vida monástica começa com a guerra de 1939-1940. Ao procurar meu caminho, alguns meses antes do começo das hostilidades, descobri o mosteiro de Madiran, aos pés dos Pireneus. Três semanas antes da declaração de guerra, passei ali uma semana da qual saí encantado. Esta guerra só durou um ano. Depois, veio o tempo do cativeiro (…).ecimentos. Abraço fraterno.

erdoe-me pela demora em te responder. Esses últimos dias foram corridos e gostaria de fazer isso com calma.

. Nele, conforme disse anteriormente, pretendo estudar essa resistência à Ditadura realizada pelas Monjas do Mosteiro do Encontro. Para fazer isso, tenho como fontes de pesquisa uma oitiva produzida pela Comissão Estadual da Verdade com a Madre Maria Chantal, que era prioresa do Mosteiro do Encontro e também a ficha do DOPS do Pe. Filipe Leddet. Sei a partir dessas fontes que diversas pessoas foram acolhidas pelas monjas do Mosteiro, incluindo o Pe. Filipe e outros como Fábio Campana, Dr. Lamartine, Zé Zanetti e Elói Pietá”.

SEGUEM ABAIXO, DOCUMENTOS DOS ARQUIVOS DA DITADURA MILITAR 

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1 comentário

  1. Miguel Camargo da Rocha diz:

    Olá sou Miguel Camargo, fui monge no mosteiro de Goiás entre 1986 a 1981, juntamente com pe Marcelo Barros, Philip leddet,Plácido (Pedro) Recroa e outros, tenho conversado com Pe Marcelo Barros sobre o desejo de retomar a vida monástica, embora ele esteja em Pernambuco, ele me falou que em tournay tem um ex monge de Goiás, José Maria, inclusive ele ache que o conheça, mas não me lembro. Estou morando na Irlanda, tive problemas de saúde, estou em tratamento, se o irmão José Maria puder ter contato comigo, gostaria de conversar sobre essa possibilidade. Miguel

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