arquivo analisado compõe um dossiê oficial da Secretaria de Estado da Segurança Pública do Paraná, especificamente da Divisão de Segurança e Informações, que reúne ofícios, mandados judiciais, relatos da prefeitura e plantas cartográficas. Estes documentos têm origem em instâncias do Poder Executivo e Judiciário das comarcas de Toledo e Marechal Cândido Rondon, datando predominantemente do período entre 1961 e 1965. O material funciona como um registro administrativo e policial sobre as “Questões de Terras Porto Britânia”, envolvendo a empresa Industrial Madeireira Colonizadora Rio Paraná S.A. (Maripá) e grupos de posseiros.
O conteúdo detalha um cenário de grave conflito fundiário na Fazenda Britânia, uma área de mais de 270 mil hectares no extremo oeste paranaense. A Maripá, alegando posse mansa e títulos dominicais sólidos, denuncia invasões perpetradas por grupos descritos como “agitadores” e “maus elementos” que estariam expulsando colonos e ameaçando a ordem pública. Em resposta, o aparato estatal planejou uma grande operação de manutenção de posse para janeiro de 1965, que incluiu o desarmamento da região e a mobilização de força policial sob supervisão militar para garantir o despejo daqueles que resistissem às ordens judiciais.
A documentação contextualiza este embate com a eclosão do golpe de 1964, mencionando explicitamente que a “Revolução de 31 de março” teria arrefecido temporariamente a agitação, mas que a vacância de juízes na região permitiu novo incentivo às ocupações. O texto revela a articulação direta entre o governo estadual, o Exército (5ª Região Militar) e empresas colonizadoras para reprimir movimentos sociais camponeses, classificados sob o estigma da “psicose de falsa reforma agrária”. Havia um medo latente de que os conflitos na fronteira gerassem repercussões na imprensa ou facilitassem a fuga de grupos armados para o Paraguai.
Esses documentos expõem a face repressiva da ditadura militar, que utilizou a estrutura de segurança pública não para mediar conflitos sociais, mas para atuar como braço armado de grandes latifundiários e empresas colonizadoras. Ao rotular sistematicamente posseiros e trabalhadores rurais como “perigosos” ou “agitadores”, o regime justificava a violência estatal e a militarização de questões civis. Essa aliança entre o capital privado e o autoritarismo militar sufocou demandas legítimas por terra e justiça social, consolidando um modelo de ocupação territorial excludente que priorizava a ordem institucional em detrimento dos direitos humanos e da dignidade dos pequenos produtores.
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